Olhei minha agenda,
Não tinha ninguém ali para conversar,
Estava sozinho de novo,
Então abri a lista telefonica e contratei mais três horas,
Meu pé doía, estava quebrado.
Eu estava com sono, com medo da noite.
… mas eu não tinha ninguém para conversar.
Estava sozinho de novo.
Eles mudaram, mas não foi por isso. Eu decidi começar a escrever sobre outras coisas também, coisas mais importantes do que eu mesmo, ou meu psique. Deixei de colocar as palavras como um reflexo da realidade em mim e comecei a colocar como um reflexo meu sobre a realidade. Em outras palavras, deixei de escrever usando minhas coisas sobre mim e comecei a escrever usando minhas coisas sobre o resto. Que obviamente é mais importante.
Gostou?
Sim, eu estou feliz.
Eu conto os pontos da minha terrível incidência.
São 17h31 agora, meu café acabou e eu ainda não terminei meu imposto de renda. Já que não tinha nada para fazer por horas a fio na frente dessa caixa branca pré-histórica que se chama de monitor, eu imaginei que pudesse terminar meu imposto de renda a tempo. Para variar, eu não consegui, e agora com o filho da puta do Rogério no meu pé, fodeu-se tudo. Porra de idéia de começar isso, agora atrasei meu trabalho, de novo.
Ele disse, - Mais uma vez que eu pegar você fazendo suas coisas pessoais no computador da empresa eu te coloco na rua! -, aquele egocêntrico, maldito gritão! Só sabe gritar no meu ouvido, nunca vi babaca igual. Parece que sente tesão em compensar a falta de pau gritando com os funcionários. Como se eles fossem cumprir essa porra de trabalho idiota mais rápido se ele gritasse. É um inútil. Deve ficar de quatro pra mulher a noite inteira e desconta isso nos funcionários. Não se podia esperar mais de um sujeito como ele, com essa calça social e sapatos de bico, camiseta e uma gravatinha que ele usa todo o santo dia. Um gel barato fazendo um topete tosco no cabelo mal cortado dele e um nariz espetacularmente grande, ainda é branco dos pés a cabeça, como um fantasma. Um fracassado personificado em empregado. Tudo bem ele se curvar para chefes, para esposa, para colegas de trabalho, mas tinha que ter uma cara de mané tão grande também? Ainda por cima, queria mandar! Só porque puxou mais o saco do chefe do que os outros…
Quer saber? Preciso terminar essa porcaria.
***
Ah! 19h e nada de Rogério. Aquele puto deve ter morrido…
Eu fiquei de terminar meu trabalho de hoje mais tarde, já que não consegui no horário que deveria - porra do imposto de renda -, e como ele é meu querido benigno supervisor, se ofereceu para me vigiar. Para ver se eu não roubava nada da ”empresa”, é só isso que importa mesmo, com certeza não estão preocupados que eu fique o caralho da noite inteira na frente desse maldito monitor sujo. Só que para isso acontecer, o Rogério teria que estar aqui me vigiando, e aquele puto deve tar no banheiro, batendo uma, aposto. Acho que vou aproveitar isso e roubar alguns grampeadores. Vou roubar o do Paulo, da mesa do lado, adora se exibir com o grampeador vintage dele, aquele hipster otário.
Mas que porra de barulho idiota é esse? Pelo visto o Rogério ta se acabando no banheiro, pelo menos alguém está se divertindo nesse matadouro.
Preciso mijar…
Na verdade, não preciso.
Vou é atrapalhar aquele bundão. Não é possível que ele continue se acabando na punheta com um outro homem mijando na cabine ao lado, não é? Quer dizer, só tem nós dois aqui, se ainda fosse algum ambiente mais público, tudo bem, mas nós nos conhecemos.
Eu nunca conseguia me acabar no banho quando minha mãe estava em casa. A velha sempre entrava no banheiro para mijar, e eu acabava broxando. Ela não sabia esperar eu terminar, foda-se a infecção de urina. Ia acabar matando ela mesmo. Questão de tempo, eu dizia, e eu estava certo, sempre estava. Agora era hora de atrapalhar o Rogério, como minha mãe me atrapalhava.
***
QUE MAL CHEIRO! ARGH! ISSO… Isso é sangue. Isso não é sangue, não é? Não! São pedaços de carne e sangue, são… São pedaços de carne e sangue, são pedaços de carne e sangue. Eu… Arrombaram essa cabine, deve ter sido aquele barulho que eu ouvi e… Eu não fiz nada, eu fiquei escrevendo e escrevendo e agora a porra do Rogério, aquele filho da puta… Ele tá em pedaços na privada, ele ta com a cabeça em cima da caixa de água da privada e tá com os dois pés dilacerados dentro da privada.
Que… mas que merda. Eu… Eu preciso sair daqui, eu… AHH
Privada, privada, privada. Haha, isso não tem graça, porra. Ele ta com o tronco todo esticado jogando no chão, com os braços enfiados no buraco do pescoço, isso… Isso não tem graça, mas eu to rindo. Eu to imóvel, eu to em pânico. Eu to suando. EU TO PARADO… mas eu abri um sorriso.
Eu queria sair daqui, mas o Rogério tá me olhando, ele ainda tá me olhando. Ele não para de me encarar, de gritar comigo, ele não para. Eu peço pra ele parar, mas ele continua gritando comigo. Eu deveria ter arrancado a cabeça dele, eu deveria ter salvo ele. Viro as costas, me despeço dos membros dele, olho para o espelho e aqueles olhos ainda estão me encarando. Esses olhos vázios, com sangue escorrendo das palpebras arrancadas, eles… Eles não querem que eu vá embora.
Eles vão me matar, mas eu ainda estou sorrindo.
Hahaha, eu não deveria ter roubado o grampeador, agora que eu roubei, o Rogério vai me demetir, é simples. É SIMPLES! É SIMPLES! É SIMPLES! Filho da puta! Eu vou te chutar daí! Para de me olh…!